Alças

Rodoviárias rendem boas crônicas.

As horas esperando no saguão rendem, pelo menos, boas risadas. É um lugar por onde muita gente diferente passa, e você acaba vendo de tudo. Mas quando eu digo que você vê de TUDO, é numa proporção ainda maior do que você imagina.

Estava eu entretida lendo meu lindo volume americano de Harry Potter quando a conversa de um senhor com uma senhora ainda mais senhora chegou aos meus ouvidos:

“Ô Zé, pode pegar água ali?”, a velhinha disse, apontando ansiosa para o bebedouro onde um homem estava enchendo uma garrafa. “O homem tá pegando, pode?”

“Pode, bem. Pega a garrafa e vai encher. Pode pegar quanta água quiser.”

“Mas ele tá pegando tudo! Olha só, toda a água! Eu vi outro desse lá embaixo, vou correr antes que peguem lá também!”

E você ouve todo tipo de história, desde a velhinha contando da viagem pra cidade natal até o surfista falando das ondas ótimas na praia de onde acabou de voltar. Mais interessante ainda é observar as roupas desse monte de gente que passa apressada por aqui. São tantas cores e estilos diferentes que dá pra brincar de consultor de moda. Pra mim, tem mais gente brega.

Outra coisa que  não dá pra não fazer é imaginar para onde cada uma dessas pessoas que passam por mim estão indo. O rapaz que estava do meu lado desde manhã acabou de arrumar a mochila, pegou a passagem e foi embora. Convivi com ele por 6 horas e não vou tornar a vê-lo. Não que eu quisesse tornar a vê-lo, mas é algo curioso. Tem muita gente ansiosa e feliz, tem muita gente chorando. O pai que está indo ver a filha recém nascida está na mesma fileira que o estudante nervoso se mudando para o interior devido a faculdade e, entre os dois, uma mulher está esperando o ônibus para ir ao velório de um amigo.

Enquanto isso um grupinho de adolescentes passa rindo de uma garota de ar entediado. Os adolescentes e a menina vão para a mesma praia. Eles para ir a festas e fumar na areia, ela para esfriar a cabeça depois de ter terminado o namoro de 8 anos.

São muitas atmosferas diferentes, e todas elas tem que conviver por um curto espaço de tempo sem se misturar. É um lugar pessoal e ao mesmo tempo impessoal demais.

Outro fato é que, depois que você resolve fazer uma viagem longa de ônibus, descobre porque chamam aquele seu amigo de “mala”. Passa a entender muito mais se teve de ir de ônibus ou metrô até a rodoviária. Mala é um inferno. Por mais que você não coloque nada dentro, fica pesada. E na rodoviária você vê todo tipo de mala. Mochilas gigantes, sacolas, gente com mala até o pescoço. Mas uma coisa abençoada é a mala de rodinha. Cambaleia, tomba, bate no calcanhar e quase te faz cair, mas é uma maravilha.

Todas as malas, na verdade, são sem alça.

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