Como eu não tenho sobre o que escrever, vou escrever sobre mim. Eu faço isso com certa frequência, como podem ver.
Depois de um dia cheio, de um projeto quase frustrado, de gente me apurrinhando e de hostilidade nos 45 do segundo tempo, resolvi fazer um chá e me dar uma folga. Chegou no ponto onde ninguém mais quer falar sério e começa a rolar um desgaste forte que eu tenho que evitar, porque é desgastando que as coisas se transformam. É nessa hora que eu vou escrever pra ficar feliz, porque né.
Hoje na estação eu estava pensando sobre o fato das pessoas terem percepção de si mesmas. Uma palestra do Egon me fez parar pra pensar nisso num nível maior. Que as pessoas raramente tem uma percepção racional de si mesmas. E eu vi que exercito com considerável frequência a percepção corporal e psicológica que eu tenho de mim e dos outros.
Na estação fiquei reparando com que lado do pé eu piso, e é com a parte de dentro. Os sapatos ficam gastos no centro e inteiros dos lados. Reparei também que sempre paro para me apoiar no pé direito, lado onde se concentram meus problemas musculares. Notei que enquanto penso nessas coisas eu olho pra um ponto aleatório fixo e fico com expressão de dúvida, por mais divertido que seja o que eu estou pensando. E as vezes eu rio, por mais estranho que seja o que eu tenho em mente.
E rio me lembra água, outra coisa que eu faço com frequência. As palavras vão me pegando e me tirando do foco, e viram foca. E sempre me pego olhando pra onde as pessoas estão olhando. Quando estou em pé no vagão acabo mexendo muito pouco qualquer parte do meu corpo, o que me faz parecer um robô e odiar isso. E nessas horas eu penso que as pessoas todas estão me olhando e pensando que eu pareço um robô, mas sei bem que é mania de perseguição. Nessa hora eu fico tranquila e passo a música aleatória que caiu no shuffle. Shuffle só serve pra eu passar pra próxima música até chegar em uma que eu teria escolhido sem o estresse do “next, next, next”. Sempre que eu estou esperando um trem, penso em tirar meu caderno e escrrever sobre algo que esteja na minha cabeça. Tiro sempre 2 minutos antes do trem passar, ai me dá um ataque de raiva e sou tomada pela sensação de EU SABIA QUE ISSO IA ACONTECER! , mas em seguida penso que eu não tinha como saber, afinal. Percebi também que minha respiração é curta na maior parte do tempo e que eu tenho tendência a travar o maxilar quando algo me deixa tensa. Pessoas respirando perto demais me esgotam o ânimo de viver. Me sinto desconfortável perto de pessoas com determinados tipos de roupa, mas sempre tento me policiar e me forço a ficar perto delas pra ver que minha antipatia é gratuita. Geralmente não é, e só me lembro depois de ter me forçado a ficar perto delas o que faz eu me sentir estúpida e ter a certeza de que farei exatamente a mesma coisa da próxima vez que situação semelhante me ocorrer.
Me pego diversas vezes categorizando em pensamento se o tipo de conversa que estranhos estão tendo ao meu redor me soa pretensiosa ou simples, divertida ou tensa. E penso ao mesmo tempo que penso demais na vida dos outros e que devia pensar mais na minha. Aquela voz do além vem pra falar “você devia ter com quem conversar primeiro antes de sair falando dos outros!” e eu concordo e começo a pensar em projetos futuros, iniciação científica e outras coisas que em seguida me deixam triste. Dai eu penso que isso acontece e começo a mexer na bolsa. Eu abro a bolsa diversas vezes sem ter um objetivo. Como eu curso psicologia, esse tipo de atitude vira o inferno, né.
Me atraio por mulheres com perfume masculino e por homens com perfume feminino. Sempre me pego olhando garotas de cabelo curtinho ou com um estilo bacana, mas penso que estilo bacana pra mim não é o mesmo que de todo mundo, e que naquele momento alguém no mesmo ambiente que eu pode estar achando o moço de bigode estranho o cara mais sexy do universo. Tento manter a atenção nas garotas de cabelo curtinho, de qualquer modo. Mas desvio o olhar quando elas me olham.
Notei que me incomoda o fato de alguém apoiar o corpo todo numa das barras do metrô feita para as pessoas segurarem. Me dá vontade de tirar a pessoa da barra e explicar pra ela que aquilo foi feito pros outros segurarem. Isso me incomoda mesmo se eu estiver sentada, mesmo se a pessoa estiver do outro lado do vagão, e mesmo se não tiver absolutamente ninguém querendo segurar.
Penso também no que as pessoas podem estar ouvindo e se elas gostam tanto do que ouvem quanto eu gosto do que ouço. Penso também na dificuldade que eu teria para achar pagode algo agradável, mas vejo com os próprios olhos que acontece com os outros e fico feliz. Tem que existir quem ouça rock pra existir quem ouve pagode. Pensa, podia ser eu.
Reparei também que eu tamborilo os dedos nas pernas quando penso em algo incomodo.
Reparei AGORA que só tem o Justin online no MSN e que eu falei sozinha por um considerável período de tempo, mas que é normal porque as pessoas dormem às 2:00. Elas certamente tem mais o que fazer. Eu teria um trabalho para amanhã, mas você acha, né. Percebi que eu estou em crise e que eu gosto mesmo de passarinhos. Chego a essa última conclusão umas 20 vezes ao dia.
18/07/2011 às 11:04 pm |
É uma armadilha. Me apaixono duas vezes. Uma pela você que eu vejo outra pela você que eu vejo quando você se descreve.
(E pra mim a pessoa mais sexy do quarto não é o cara de bigode nem o trompetista que entrou no vagão, mas a garota com camiseta do The Who no canto do trem que vai me ignorar até eu desistir de achar que isso é uma tática pra ela ser ainda mais atraente).
Eu gosto mesmo de você. Chego a essa conclusão umas 20 vezes ao dia.