É o caos. Ele vai tomando conta da cena sem que você perceba. Pequenas coisas que vão acontecendo e estão completamente fora do seu controle. Tudo vai acontecendo sucessivamente. Os primeiros sinais são quase imperceptíveis, podem facilmente passar sem que você note. Você até nota, mas é algo que não chega a causar estranhamento. Alguém passar cantando perto de você, por exemplo. É algo que pode ser banal. Passa sem que seja notado.
Logo em seguida aparecem as coisas que fazem você parar e efetivamente pensar sobre aquilo. Lembre-se que tudo tem que acontecer em sequência, sem muito tempo entre uma e outra coisa. O moço acabou de passar cantando por você e, agora, você caminha por uma rua vazia, onze da noite, e passa por um mendigo sentado com um ursinho de pelúcia na coleira. O mendigo te segue com os olhos. Cena simples, silenciosa. Você para para avaliar o quão peculiar é aquilo. Que estranho, isso nunca te aconteceu. Você corre para a estação pegar o ônibus, afinal, a balada começa meia noite. Você avista que o ônibus esta lá, parado, e resolve parar de correr. Espera que a escada rolante te leve até o andar de baixo até que, subitamente, você começa a ser levado para cima. Olha para o topo da escada esperando alguma explicação e vê uma pessoa sorrir e falar “desculpa”. Não sabe se começa a correr para terminar de descer, ou espera a escada te levar até o topo. Isso não estava nos planos. Espera chegar no topo, procura pela pessoa que fez aquela sacanagem. Não há mais ninguém visivel. Uma mulher com um saquinho de pão de queijo te olha do canto da plataforma. Você desce de novo e vai para a fila do ônibus.
Nessa altura, você já está desconfiando que algo vai mal. Uma sensação de estranheza percorre seu corpo, você se sente levemente incomodado. A expressão desconfiada se instala no seu rosto e não sairá dele pelas próximas horas.
Na fila do ônibus, o motorista reclama do cheiro do óleo do motor que vazou pelo ônibus. Pede para as pessoas começarem a entrar. Tomem cuidado para não cair! – avisa ele. As 5 pessoas na fila sobem no ônibus. O cheiro do óleo é forte. A mulher que estava encostada no pilar, com o pão de queijo, abraça e beija o motorista. Vamos, meu amor. – diz ela com uma voz simpática. Claro que você também não contava com aquilo. Todos entram, o ônibus liga. As luzes não se acendem, uma ou outra fica muito fraca, piscando. O ônibus fica num clima sombrio, os trabalhadores sentam todos muito longe uns dos outros. Em 5 minutos, todos estão conversando entre si num papo muito animado. Você pensava que eles não se conheciam, mas até ai.
As luzes que estavam piscando se apagam num estouro. Você não tinha notado, mas os trabalhadores já haviam parado de convesar e estavam dormindo. Você definitivamente nota que algo está errado. As pequenas situações que foram ocorrendo te deixaram num estado de alerta. O que pode vir depois?
O ônibus quebra numa avenida movimentada. No mesmo segundo, um grupo de adolescentes que você não consegue muito bem ver os rostos passam gritando “TRAVESTI, TRAVESTI, TRAVESTI”. As vozes vão ficando distantes. A mulher do motorista tira uma lanterna enorme do bolso para ele checar o problema. A mulher do motorista tinha uma lanterna enorme no bolso! Você desce do ônibus e pega um táxi, porque falta pouco para chegar até a balada. O motorista do táxi ouve aquela música que marcou sua infância e que você simplesmente não esperava ouvir ali, naquele momento. Vai descendo na boquinha da garrafa! Chega na rua da balada. No caminho, vê uma marmitex inteira aberta no meio da calçada com pelo menos 30 baratas andando por ela. Pula a marmitex e começa a entrar em estado de perseguição. O pânico toma conta de você. Chega na balada e espera que tudo seja melhor. Encontra uns amigos e prefere não comentar sobre as coisas estranhas.
Na balada, tudo corre bem até que um projetor seja colocado em algum lugar misterioso e Crepúsculo comece a ser exibido no telão. Uma fotógrafa que fala espanhol pede para tirar uma foto sua. Ao mesmo tempo, você percebe a existência de um ser estranho de óculos grandes que aborda as pessoas na tentativa de fazer amizade. Ela te aborda. Você ignora e começa a dançar de olhos fechados. Sente seu cabelo caindo na sua cara. Mas estava preso! Ao procurar o elástico, vê que a criatura de óculos tirou o elástico do seu cabelo, sorriu e desapareceu no meio das outras pessoas. Ao procurar ela, você vê alguém andando agachado no meio da multidão desamarrando os cadarços alheios. A mesma fotógrafa do começo pede para tirar outra foto sua. Pede para você não olhar para a câmera. O pânico volta. O caos te perseguiu na balada! Você resolve sentar para pensar sobre aquilo. Na sua frente, uma menina se ajoelha na frente de uma outra e implora por algo. A outra a beija. Choram no ombro uma da outra, enxugam as lágrimas. Você está tocada, emocionada, até que uma se despede da outra com um apertão na bunda. Você se lembra que provavelmente elas não se conheciam antes. A menina ajoelha para outra garota. Um travesti entra nu na balada. A fotógrafa que fala espanhol pede por uma última foto. Você resolve ir embora. Corre para o metrô o mais rápido que pode. Quer chegar em casa, deitar e esquecer daquele dia terrível em São Paulo. Entra num vagão onde só há você e uma pessoa falando em alemão ao celular. Se estica, encosta a cabeça, vai tentar dormir até chegar na sua estação. O motorista anuncia a parada na próxima estação. O vagão se enche de pessoas falando alemão. Todos descem na próxima.
31/10/2010 às 10:33 pm |
Depois quando dizem que as histórias são baseadas em fatos reais você acredita… tolinha.
(Muito bom, Zaorl! Morderia sempre).